Não há tempo perdido para retomar os estudos. Com vontade, determinação e amor para aprender a ler e a escrever é sempre possível. Depois de mais de 60 anos fora das salas de aulas, o casal Eliene Cândido de Oliveira, 80 anos, e Abismal Alexandre de Oliveira, 81 anos, encontrou, no amor, o desejo de voltar juntos a estudar.

Ambos retomaram os estudos no ano passado e, hoje, são alunos da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (Ejai) da Escola Municipal Dom Antônio Brandão, do Tabuleiro do Martins, parte alta de Maceió.

Dona Eliene é natural de Murici, interior alagoano, e iniciou os estudos tardiamente, com 15 anos, mas por pouco tempo. No entanto, ela recorda com alegria os momentos na escola.

“Eu tinha muita vontade de estudar nas escolas que eram de usinas. Mas meu pai dizia que não podia, porque tinha que cuidar das coisas [de casa]. Quando eu tinha 15 anos de idade, meu pai só colocou a gente na escola porque na época o governo ia pagar um benefício e só podia ser pago com os filhos na escola. Eu fiquei tão feliz, tão feliz! Mandaram fazer aquelas fardinhas e com 15 anos eu fui pra casa do ABC, quando comecei a estudar. Eu estudei até o terceiro ano, mas a professora foi para outro lugar e não tinha mais onde estudar”, relembrou.

Nascido no interior pernambucano, na cidade de Surubim, Abismal, diferente da esposa, praticamente não teve contato com os estudos. A infância foi voltada para os trabalhos ao lado do pai no campo e para as brincadeiras de criança.

“Eu estudei apenas 15 dias quando era criança. Meu pai dizia ‘largue a escola e venha pro lance do mato’ e eu ia, e ficava jogando pião. Estudei pouco tempo e não aprendi nada. Quando mudei para Alagoas, também não estudei, fui trabalhar. Vim estudar agora depois de tanto tempo”, contou o aluno.

O casal ficou sabendo que funcionava Ejai na Escola Dom Antônio Brandão através de um carro de som, que divulgou as matrículas para a modalidade na redondeza. Segundo Dona Eliene, além do desejo de voltar a estudar, o casal também contou com o incentivo e apoio das duas filhas.

“Eu falei ‘vamos também, Abismal?’, e ele disse ‘vamos!’. As minhas meninas [filhas] também mandaram a gente vir. Mas falei ‘nessa idade estudar?’. Estamos gostando, as pessoas daqui são muito legais”, afirmou a aluna.

Além do estímulo da esposa e das filhas, Abismal revela qual foi a principal motivação para estudar mesmo depois de tanto tempo. “Eu me animei porque não sei ler de jeito nenhum. Então quando eu estava em um ponto para pegar ônibus era muito difícil, ficava perguntando aos outros e fui colocando na minha cabeça ‘vou estudar pra vê se aprendo’. Com um ano estudando, já estou lendo alguns nomes e estou feliz por causa disso”, contou.

Hoje o casal é um exemplo de inspiração, determinação e superação dentro da escola. A modalidade atende alunos a partir de 16 anos. Não há limites de faixa etária, basta querer e ter vontade. Eliene e Abismal são a prova viva de que sempre há tempo para realizar os próprios sonhos e alcançar os objetivos.

“Para estudar não falta tempo e nem tem idade, basta ter vontade de estudar. Para voltar à escola não tem idade não. Acho que estudar é o melhor negócio que o indivíduo poderia fazer”, concluiu Abismal.