Mercúrio no corpo em gestantes Munduruku, médias de 9,1 µg/g em mães e 5,8 µg/g em bebês, contaminação ligada ao garimpo ilegal e à dieta baseada em peixe, risco neurológico
Um estudo preliminar da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, identificou níveis elevados de mercúrio entre gestantes da Terra Indígena Munduruku, no Pará.
A média encontrada nas mulheres foi de 9,1 microgramas por grama de cabelo (µg/g), enquanto o limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde é de 2 µg/g.
Os resultados mostram ainda que cerca de 90% dos recém-nascidos já apresentam contaminação ao nascer, com média de 5,8 µg/g, o que eleva o alerta sobre efeitos no desenvolvimento neurológico infantil,
(conforme informação divulgada pela Gazeta Nordestina)
Resultados quantitativos e casos extremos
Dos 195 casos monitorados entre gestantes, 97% apresentaram níveis superiores ao considerado seguro. A média de 9,1 µg/g contrasta com o parâmetro de 2 µg/g, evidenciando exposição crônica.
Um dos casos mais extremos registrou 39,9 µg/g, valor que representa 20 vezes o limite tolerável, e reforça a gravidade da contaminação entre as mulheres avaliadas.
Impactos esperados no neurodesenvolvimento infantil
A exposição pré-natal é particularmente perigosa porque o mercúrio atravessa a placenta e age como neurotoxina, afetando o sistema nervoso central em formação.
O coordenador da pesquisa, Paulo Basta, alertou que, “Uma lesão que ocorre no sistema nervoso central é uma lesão irreversível. As pessoas vão ter que lidar com esse problema para sempre“, ressaltando o caráter permanente dos danos.
Origem da contaminação e vulnerabilidade alimentar
A principal causa identificada é o garimpo ilegal de ouro, que usa mercúrio no processo de separação, contaminando rios e a cadeia alimentar local.
Para o povo Munduruku, o peixe é a base da alimentação, o que torna a redução da exposição extremamente difícil. A liderança Alessandra Korap Munduruku afirmou, “Nossa principal fonte de alimento é o peixe e não há como fugir disso“, e questionou o modelo de desenvolvimento que expulsa povos tradicionais, “É como se nós não existíssemos. Que progresso é esse que mata rios, florestas e expulsa os povos?“.
Dados oficiais, responsabilidades e respostas urgentes
A pesquisa também aponta lacunas na notificação e no monitoramento oficial, e pede que os dados se tornem estatísticas públicas para orientar políticas de saúde.
Até o momento, foram identificados 751 casos confirmados de indígenas contaminados por mercúrio, sendo 318 no Pará e 378 em Roraima, ligados ao povo Yanomami, o que evidencia que o problema afeta diferentes povos e territórios.
A promotora do Ministério Público do Estado do Pará, Eliane Moreira, destacou a responsabilidade dos entes públicos pela fragilidade do licenciamento e pela falta de fiscalização, fatores que possibilitam a continuidade do garimpo ilegal.
Especialistas defendem ações integradas, que incluam monitoramento biomédico, alternativas alimentares sustentáveis, combate ao garimpo ilegal e inclusão da contaminação por mercúrio em sistemas de notificação de saúde.




